Pra que possa rolar algum entendimento aqui, vamos primeiro a uma coisa muito importante: sou um professor – de inglês, diga-se de passagem. Eis o único "título", por assim dizer, que me arrisco a dizer que tenho. Não sou nenhum especialista em política internacional, medidas antiterrorismo ou qualquer coisa do gênero. Logo, essa não é a opinião de um profissional e está muito longe de intencionar sê-lo. Trata-se apenas de eu finalmente cansando de ter de me explicar repetidamente cada vez que a morte do Osama entra em pauta perto de mim.
Sou contra o pensamento de que matar um criminoso, ou qualquer outra pessoa, ajude a tornar o mundo um lugar melhor. Pela simples razão de que tirar uma vida não tem o poder de anular a morte de quem quer que seja. Não importa se ele matou um quintupilhão de pessoas, estuprou as próprias filhas ou levou uma raça rara de pandas à extinção. Nenhum crime, por mais hediondo e imperdoável que seja, torna alguém menos indigno do direito à vida.
Não, nem sempre pensei exatamente desse jeito e aceito numa boa quando alguém me lembra disso. Mas não vejo por que o fato de eu não ter sempre pensado assim haveria de interferir na lógica do que eu disse acima. Aliás, eu conheço o raciocínio sim. É o mesmo de quem alega "Isso é o que você diz agora! Espera até ele estuprar sua irmã, a sua namorada ou a sua filha!". Já sei, já sei. Eu só penso assim porque é algo que não me envolve, certo?
Pois bem, vamos a mais algumas informações importantes: sim, eu já perdi um ente querido por causa de um criminoso. Meu bisavô foi assassinado com dois tiros, porque não aceitou ceder o carro dele a um assaltante que pretendia usá-lo para fugir da polícia. Não, eu não to inventando isso inspirado no tio Ben, do Homem-Aranha (embora seja um dos meus heróis favoritos). Quem dera fosse o caso. Afinal, meu pai e meus tios teriam sofrido muito menos.
E sim, eu não conheço nenhuma mulher que tenha sido estuprada. Em compensação, tenho mais de um amigo que foi abusado sexualmente quando criança. Sempre por pessoas próximas a eles: primo, avô, irmão e por aí vai. E, claro, eu ficava ainda mais revoltado com esse tipo de coisa a cada vez que uma nova história dessas me era contada. Fico até hoje.
Mas mesmo nesses casos, em que pessoas queridas foram as vítimas em questão, não creio que matar os culpados fosse ser efetivamente um exemplo de justiça sendo feita. Ah, é um absurdo que eles fiquem impunes? Claro. Não desejo que eles caminhem livres por aí. Mas prefiro vê-los atrás das grades por, ao menos, uns bons trinta anos (já que no Brasil, até onde me consta, não é permitida pena mais longa do que essa). Pois é o que me parece justo.
Nenhum criminoso, por mais psicopata que seja, tem menos direito à vida e à justiça do que um cidadão que segue as leis e os bons costumes. Como uma vez disse meu amigo Pedro, o @utops, ser humanitário apenas com quem é bonzinho não é ser humanitário. Não importa o quanto isso te doa ou te revolte, meu amigo. É a verdade. Encare isso. Constrói o caráter.
O vereador Walmir Jacinto, de Anápolis (PR), não estava sendo ridículo ao pedir um minuto de silêncio pela morte de Osama, "por ele ser um filho de deus". Se eu, como ele, teria a coragem de fazer isso, ainda mais na ocasião em que se pretendia homenagear a morte de um membro respeitável, por assim dizer, da comunidade em questão? Não, não sou tão "nobre" assim, e, sinceramente, achei insensível da parte dele não ter pensado em como a família do empresário se sentiria a respeito de tal ato, por melhor que fosse a intenção.
Se eu respeito essa intenção e o raciocínio dele? Sim, sem a menor sombra de dúvida. Acusem-no de uma gritante falta de timing se quiserem e de uma cara de pau excepcional por fazer algo que obviamente teria uma repercussão insana, concordarei com vocês. Mas parem pra pensar por um instante: ridicularizá-lo é desrespeitar um homem que só tentou lembrar outros de que nenhuma vida vale mais ou menos do que outra. (Sim, CLARO que ele pode ter feito isso só pra "ficar bem na fita", afinal estamos falando de um político, mas tenhamos um pouco de fé na humanidade, por favor. E, antes de me acusarem de estar ''falando mal dos políticos", meu pai é um deles. Não se dê ao trabalho.)
Aliás, falando em ridicularizar, entendam muito bem o seguinte: não estou acusando os Estados Unidos de assassinato, execução sumária ou coisa semelhante. A alegação é de que Osama recusou se render e que, inclusive, chegou a usar uma mulher como escudo. A morte dele, que não era o objetivo da missão, seria, portanto, uma conseqüência das circunstâncias. Ah, eles podem estar mentindo? Podem. Qualquer um sempre pode estar mentindo. Se não aprendeu isso até hoje, amigo, talvez seja uma boa hora pra começar.
Se eu acho que eles estão mentindo? Não. Por mais que a possibilidade da mentira sempre exista, prefiro pecar por crer do que por acusar injustamente. E, a propósito, leiam com atenção: não estou tentando condenar um único americano que seja, ou qualquer outra pessoa, por estar feliz e aliviado pelo que aconteceu.
Respeito a indescritível dor dos americanos em relação ao onze de setembro e respeito integralmente que muitos deles considerem a morte do Osama como a justiça sendo, finalmente, feita. Em tempos nos quais a impunidade se faz algo tão presente, nada mais natural que comemorar a sensação de alguém, no meio dessa bagunça toda, ter feito a justiça prevalecer. Eu entendo isso. E você que está criticando o Obama, mas achou ótimo o cara do Realengo ter morrido, também deveria entender, não acha?
Ah, se eu gosto de tanta gente celebrando a morte de um homem porque ele "merecia morrer"? Não. Acho, sinceramente, algo muito triste. Acontece, no entanto, que essa é apenas a minha opinião. E respeito o direito de cada um a ter a sua. O fato de alguém discordar do que eu penso não faz com que o jeito dela de olhar pras coisas em questão seja necessariamente errado e passível de condenação. Não é difícil entender isso, é?
É, entretanto, exatamente essa consciência que eu mais vejo ausente durante as discussões todas sobre esse tema e vários outros ultimamente. Isso é o que eu acho mais triste no meio disso tudo. E esse texto é o meu modo de me expressar a respeito.
A você que leu isso até o final e não gostou de tê-lo feito, digo o seguinte: é muito fácil me chamar de hipócrita, moralista, idealista ou coisa que o valha. Mais do que apenas fácil, é uma manobra escapista um tanto prática. Atacar o autor das palavras é sempre muito mais cômodo que atacar os argumentos em questão. Quem não sabe disso?
Enfim, caso, tendo concordado ou não, queira dar sua opinião, sinta-se em casa.


